Episódio 01: A Soberania em Jogo - Do Petróleo ao SDK
O Ponto de Partida: Uma Conversa sobre o Brasil
Esta série de artigos nasceu de um diálogo profundo com um engenheiro químico que, há quase duas décadas, atua como desenvolvedor Java. Nossa conversa começou com uma análise do livro "1964: História do Regime Militar Brasileiro", de Marcos Napolitano, mas rapidamente evoluiu para uma poderosa analogia: a história do Brasil, vista através das lentes da engenharia de software. Na visão de quem inspirou esta série, a luta do país por soberania é semelhante à batalha de um desenvolvedor para não se tornar refém de um "SDK" (Software Development Kit) estrangeiro.
Em 1971, o Brasil vivia o auge do "Milagre Econômico". Éramos uma nação que crescia a taxas impressionantes, construindo uma indústria robusta. No entanto, esse crescimento era como uma aplicação complexa rodando em um hardware que não controlávamos. O "hardware" da época era o petróleo, e seus donos eram as "Sete Irmãs", as gigantes petroleiras que ditavam o preço e o fornecimento. A crise de 1973, quando o preço do barril quadruplicou, foi o "crash" do nosso sistema. A dependência externa cobrou seu preço, expondo a fragilidade da nossa soberania energética.
O Proálcool: Nosso Primeiro "Framework Nativo"
A resposta a essa crise foi uma das maiores proezas da engenharia nacional: o Proálcool. Na ótica de um engenheiro químico que inspirou esta série, o programa foi nossa primeira tentativa de escrever um "framework nativo". Em vez de apenas consumir a "API" do mercado global de petróleo, decidimos criar nossa própria solução, usando a tecnologia e os recursos que tínhamos – a cana-de-açúcar. O Proálcool foi um ato de soberania, uma declaração de que poderíamos, sim, desenvolver nosso próprio "core".
Essa mentalidade, no entanto, foi se perdendo. A transição para a democracia nos anos 80 e a abertura econômica dos anos 90 trouxeram um novo paradigma. A dependência do "hardware" físico deu lugar à dependência do "software".
A Era do Software: Reféns do SDK Americano
Quem inspirou esta série vivenciou essa mudança na pele. Em 1994, recém-formado, procurava emprego como programador Pascal. Era o fim da "Reserva de Informática", uma política controversa que tentou, de forma desajeitada, criar uma indústria de computadores nacional. Com o fim da reserva, o Brasil não apenas importou hardware, mas abraçou de vez os "SDKs" americanos.
Hoje, a economia global roda sobre a infraestrutura das "Sete Magníficas": Apple, Microsoft, Google, Amazon, Nvidia, Meta e Tesla. Elas são as novas "Sete Irmãs". Elas não controlam apenas o combustível, mas o próprio "runtime" da nossa vida digital. "Somos reféns do SDK", resumiu quem inspirou esta reflexão. Desenvolvemos em linguagens e plataformas que elas criam, armazenamos nossos dados em suas nuvens e nossa visibilidade depende de seus algoritmos. O controle, que no regime militar era exercido por decretos e censura, hoje é uma "feature" invisível embutida no sistema.
O Dilema Atual: O "Kit Chinês" e o "Big Brother" Digital
Nesse cenário, surge a China, oferecendo um "kit" de desenvolvimento alternativo: carros elétricos, redes 5G, uma nova infraestrutura. A questão que se impõe é se estamos apenas trocando de fornecedor, saindo da dependência americana para a chinesa, e nos contentando com o papel de "montadores de kits".
Enquanto isso, o controle se aprofunda. O "Big Brother" digital, como quem inspirou esta série o chama, não é mais uma entidade externa. Ele "já está dentro da internet". A vigilância não é mais sobre o que fazemos, mas sobre o que pensamos. Os algoritmos que usamos são caixas-pretas que moldam nosso comportamento e percepção da realidade. Consciente disso, quem inspirou esta reflexão tomou uma decisão radical: isolou-se tecnicamente do controle do Google, numa tentativa de rodar sua vida em "localhost".
Este é o nosso ponto de partida. Nos próximos episódios, vamos mergulhar em cada uma dessas dependências, explorar o poder das "Sete Magníficas", analisar a ameaça e a oportunidade do "kit chinês" e, finalmente, discutir se o Brasil, a exemplo do que fez com o PIX, pode voltar a escrever seu próprio código-fonte, reafirmando sua soberania na era digital.
Reflexão final: O desafio da soberania digital brasileira está apenas começando. A história mostra que dependências tecnológicas podem ser superadas com criatividade, estratégia e vontade coletiva. Que lições podemos tirar do passado para construir um futuro mais autônomo? Convido você a refletir sobre o papel do Brasil no cenário global e a compartilhar suas ideias nos comentários. Não perca os próximos episódios desta série!
Nota: Esta série foi inspirada por reflexões de profissionais da área, preservando o anonimato.
Referências Bibliográficas
- NAPOLITANO, Marcos. 1964: História do Regime Militar Brasileiro. São Paulo: Editora Contexto, 2014.