Episódio 03: O "Kit Chinês": Nova Dependência ou Oportunidade?

Episódio 03: O Kit Chinês

A China Oferece o Atalho

Enquanto os EUA dominam o "software" (SDKs, nuvem, algoritmos), a China domina o "hardware" (baterias, semicondutores, manufatura). A estratégia chinesa é clara: oferecer um "kit pronto" para a mobilidade elétrica.

A BYD e a GWM chegam ao Brasil com carros elétricos baratos, com baterias sofisticadas e sistemas de software integrados. Para um país que gastou décadas aperfeiçoando o Proálcool (etanol), parece um atalho tentador: por que gastar energia em P&D quando podemos montar um kit pronto?

De Criadores para Montadores de Kits

No regime militar que Napolitano descreve, o Brasil tentou ser verticalizado: produzir da molécula ao produto final. O Proálcool foi exatamente isso: plantio, destilação, motores, rede de distribuição. Era Full Stack Development na engenharia.

Ao aceitar o kit chinês, o Brasil corre o risco de dar um `git rm -rf` em 50 anos de conhecimento acumulado na Engenharia Química e Biotecnologia para virar dependente de uma matriz de Lítio que não controlamos. Deixamos de ser "quem projeta a reação" para sermos "quem apenas aperta o botão de um software proprietário".

Isso é o que um engenheiro que inspirou esta série chama de "Uberização" da indústria: a tecnologia é deles, o lucro do licenciamento é deles, e a mão de obra de montagem (barata) é nossa.

O Dilema da "Lua" vs "C++"

Na programação, Lua é uma linguagem fantástica, mas ela é feita para ser embarcada. Ela não roda o sistema operacional; ela apenas dá ordens para um motor (engine) escrito em C ou C++.

O Brasil "Lua": Se virarmos montadores de kits chineses, seremos o script. A gente faz a interface, o ajuste fino, o "jeitinho" local. A China "C++": Eles detêm o motor, a gestão de memória e o acesso direto ao hardware (as baterias e os chips).

Se o motor chinês travar ou mudar de versão, o nosso script vira lixo eletrônico. Não temos o "código-fonte" para debugar.

Geisel 2.0: O Pragmatismo do "Vendor Switching"

Napolitano mostra que o General Geisel, mesmo sendo anticomunista, foi pragmático. Em 1974, reconheceu a China de Mao Tsé-Tung porque precisava de mercado e energia. O governo atual faz o mesmo: suaviza a diplomacia com Pequim porque a China é o maior comprador da nossa produção bruta (soja, minério, petróleo) e o maior vendedor de infraestrutura digital.

Mas trocar de Vendor em um sistema legado é arriscado. Quando você desinstala a dependência americana, precisa ter uma alternativa pronta. O Brasil pode estar apenas se "casando" com um lock-in geopolítico novo.

A Ironia de 50 Anos

O regime militar investiu em Itaipu para termos soberania energética. Cinquenta anos depois, quem está usando essa energia de Itaipu para rodar frotas modernas não são montadoras brasileiras, mas gigantes chinesas que ocupam as fábricas que as antigas "Sete Irmãs" (ou montadoras tradicionais como a Ford) abandonaram.

Enquanto isso, o Brasil continua fazendo o que sempre fez: procurando um atalho para o desenvolvimento, sem resolver o problema de base.

Reflexão final: O dilema entre criar e apenas montar soluções prontas é central para o futuro do Brasil. Será que estamos prontos para investir em conhecimento próprio ou continuaremos dependentes de kits estrangeiros? Deixe sua opinião e participe dessa construção coletiva de ideias. Nos vemos no próximo episódio!


Nota: Esta série foi inspirada por reflexões de profissionais da área, preservando o anonimato.

Referências Bibliográficas

  • NAPOLITANO, Marcos. 1964: História do Regime Militar Brasileiro. São Paulo: Editora Contexto, 2014.

Christian Mulato
Cidadão Brasileiro

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