Episódio 05: O Legado de 1964 e a Nossa Dívida Técnica
O Brasil como "Sistema com Bugs Históricos"
Na visão de um desenvolvedor que inspirou esta série, o Brasil é visto através da lente da arquitetura de sistemas. O livro de Marcos Napolitano sobre o regime militar descreve uma série de decisões arquiteturais que deixaram cicatrizes no código-base nacional.
Como desenvolvedor sênior, você sabe que um erro de arquitetura no início do projeto gera bugs (reflexos) que aparecem em camadas muito distantes lá na frente. O regime militar foi exatamente isso: uma arquitetura fundamentally flawed que criou uma "dívida técnica" social e econômica que ainda pagamos hoje.
A "Dívida Técnica" do Milagre Econômico
O Milagre Econômico dos anos 70 foi a maior dívida técnica da nossa história. O regime fez o país crescer rápido sem educar a base da pirâmide e sem distribuir renda. Era um "puxadinho" para entregar números bonitos, sabendo que daria problema depois.
Enquanto isso, a infraestrutura física era pensada sem resiliência: tudo dependia de uma única variável externa — o petróleo. Quando os choques de 1973 e 1979 chegaram, o sistema entrou em "kernel panic". O governo tentou consertar com "patches" (planos econômicos), mas a dívida técnica era estrutural.
O "Legacy Code" do Rodoviarismo
Uma das piores decisões arquiteturais foi priorizar o transporte rodoviário em detrimento do ferroviário. Isso atrelou toda a logística nacional (comida, insumos, passageiros) ao diesel e à gasolina. Quando o petróleo disparou de preço, a inflação foi importada instantaneamente para dentro de cada caminhão no Brasil.
Até hoje, sempre que há uma greve de caminhoneiros ou alta no preço do petróleo, o Brasil entra em Deadlock. Esse é o reflexo direto da escolha dos militares de 1971. É "legacy code" que ainda não conseguimos refatorar.
O "Wrapper" Político: A Transição Conciliada
Napolitano bate muito nesta tecla: o Brasil não "deletou" os arquivos do regime anterior; ele apenas renomeou as pastas. Como não houve uma ruptura clara (julgamentos ou punições como em outros países), os reflexos autoritários aparecem toda vez que o sistema entra em estresse político.
A Lei de Anistia funcionou como um encapsulamento: impediu que o sistema olhasse para dentro do próprio código para ver os erros (os crimes de tortura). É como tentar consertar um bug sem acessar o stack trace.
A "Dívida Técnica" Social
Brasil de 1971 "economizou" em educação de base para investir em obras faraônicas. Hoje pagamos o juro alto disso na falta de mão de obra qualificada e na exclusão digital. A desigualdade que o regime não enfrentou gerou uma "dívida técnica" de inclusão que compromete qualquer transformação digital.
Para um país ser soberano digitalmente, precisa de uma população alfabetizada digitalmente. O regime militar não investiu nisso. Estamos pagando esse débito até agora.
O "Refactoring" que Nunca Terminamos
O Plano Real de 1994 foi um "wrapper" de sucesso: criou uma camada de confiança sobre uma moeda que ainda tinha problemas estruturais. Mas como todo desenvolvedor sabe, se o wrapper for pesado demais, ele consome muita memória. O custo para manter essa estabilidade (juros altos) é o "overhead" que pagamos até hoje.
Nunca refatoramos o sistema. Apenas criamos camadas de abstração sobre o mesmo código quebrado de 1971.
Reflexão final: A dívida técnica do Brasil não é apenas tecnológica, mas social e histórica. Como podemos promover um verdadeiro refactoring nacional? Sua visão pode ajudar a iluminar caminhos para um futuro mais justo e inovador. Participe do debate e acompanhe os próximos episódios!
Nota: Esta série foi inspirada por reflexões de profissionais da área, preservando o anonimato.
Referências Bibliográficas
- NAPOLITANO, Marcos. 1964: História do Regime Militar Brasileiro. São Paulo: Editora Contexto, 2014.