Episódio 07: Refatorando o Futuro do Brasil

Episódio 07: Refatorando o Futuro

O "Code Review" Final: Onde Estamos?

Ao longo dessa série, refatoramos a história do Brasil através da lente do software: as "Sete Irmãs" do petróleo que nos controlaram nos anos 70; as "Sete Magníficas" da tecnologia que nos controlam hoje; o "kit chinês" que oferece um atalho tentador; e a prova de soberania que foi o PIX.

Quem inspirou esta série, com décadas de desenvolvimento em SDKs americanos, ofereceu-nos uma perspectiva privilegiada: a de quem viveu o Brasil de 1971 (auge do Milagre), de 1994 (transição para a dependência americana via Pascal), e agora 2026 (dominação total do Big Brother digital). A pergunta que se impõe é: ainda temos tempo de "refatorar"?

O Diagnóstico: Somos Refém de Um SDK

Napolitano mostra que o Brasil tem uma tendência histórica de buscar o atalho tecnológico. Queremos a modernidade (o carro elétrico brilhando na vitrine), mas não queremos o trabalho de desenvolver a base.

Em 1971, o "kit" era o petróleo bruto. Em 2026, o "kit" é a bateria chinesa com inteligência artificial americana. Somos uma montadora de kits — o que quem inspirou esta série chamou de "economia do SDK". Não escrevemos o código; apenas consumimos a API e montamos o front-end com peças que vêm prontas.

O Que o PIX Nos Ensina

O PIX é a exceção que prova a regra. Quando decisões técnicas são tomadas com clareza estratégica, o Brasil não apenas compete — lidera. O sistema de pagamentos instantâneo que criamos é copiado pelo mundo. O FedNow dos EUA é inspirado em nós.

Mas o PIX é uma ilha. Em torno dele, há um oceano de dependência. Por que conseguimos fazer o PIX e não conseguimos fazer outras coisas? Talvez porque o PIX foi uma decisão de risco calculado com horizonte de tempo claro e metas bem definidas. Algo que a gestão de projetos nacionais raramente oferece.

Os Três Caminhos Possíveis

Caminho 1: O "Upgrade" Total para o Kit Chinês - Trocar a dependência americana pela chinesa. Rápido, barato, mas deixa-nos como montadores de kits eternamente. Perdemos qualquer chance de ser dono do nosso destino.

Caminho 2: O Isolamento (modo localhost) - Tentar sair do jogo completamente. Impossível para um país, muito difícil até para um indivíduo sênior. Mas mantém a integridade mental.

Caminho 3: O "Refactoring" Seletivo - Replicar o sucesso do PIX em domínios críticos (educação, energia, saúde, IA). Usar SDKs americanos e chineses como bibliotecas externas, mas manter o controle do nosso próprio "core code" onde realmente importa.

O "Make or Buy" do Brasil

Na computação, existe um dilema clássico: "Make or Buy" (Fazer ou Comprar). O regime militar tentou "Make" (fazer tudo, do computador ao carro a álcool), mas o sistema ficou caro e lento. Desde 1994, o Brasil escolheu "Buy" (comprar a solução pronta).

O risco é que quem só compra nunca aprende a debugar o próprio futuro. O Brasil corre o risco de se tornar uma "instância" totalmente controlada pelo Big Brother de Seattle, Redmond ou Pequim.

O "Pull Request" para o Futuro

Se tivéssemos que fazer um "pull request" para o Brasil, o que mudaria?

  • Investimento em Educação Técnica de Base: Sem população alfabetizada digitalmente, qualquer soberania é ficção.
  • Projetos de Risco Calculado: Como o PIX, mas em outras áreas. Investir em P&D mesmo que não retorne imediatamente.
  • Open Source como Estratégia: Criar Software Brasileiro que seja tão bom que o mundo quer usar (e não consegue monopolizar).
  • Alianças Regionais: Argentina, Chile, México têm problemas semelhantes. Juntos, poderíamos ter escala para não depender de ninguém.
  • Defesa de Dados Nacionais: Se você não controla seus dados, não controla seu futuro.

A Reflexão Final: 54 Anos Depois

Quem inspirou esta série nasceu no auge do Milagre de 1971. Presenciou o crash de 1980. Fez vestibular em 1991, o ano da "abertura". Trabalhou em Pascal quando o Brasil estava saindo de uma reserva tecnológica. Viu o Java dominar. Desenvolveu por 18 anos em SDKs que não controla. E decidiu se isolar tecnicamente para recuperar sua autonomia.

Essa é uma metáfora do Brasil: é possível ser mais sofisticado, mais veloz, mais eficiente dentro do sistema das Sete Magníficas? Talvez. Mas será que é suficiente? Ou precisamos realmente começar a escrever nosso próprio código?

A Hora da Decisão

O Brasil tem uma escolha clara diante de si. Continuar sendo um "vira-lata" tecnológico que monta kits e desenvolve em SDKs alheios. Ou começar, mesmo que tardiamente, a refatorar sua arquitetura fundamental.

O PIX provou que podemos. O isolamento de quem inspirou esta série provou que há alternativas. O que falta é vontade política e uma compreensão clara de que soberania, no século XXI, é soberania digital. Quem controla o "runtime" do país controla o país.

Reflexão final: Chegamos ao fim desta série, mas o debate sobre o futuro tecnológico do Brasil está apenas começando. O que você acredita ser o próximo passo para nossa soberania digital? Deixe seu comentário, compartilhe este conteúdo e ajude a construir um Brasil mais autônomo e inovador. Obrigado por acompanhar até aqui!

A conversa com quem inspirou esta série — um desenvolvedor Java, engenheiro químico, que viveu o Brasil de várias eras — ofereceu uma bússola. Agora, é com o Brasil decidir: continua rodando em "localhost" alheio, ou tenta escrever o seu próprio "kernel"?


Nota: Esta série foi inspirada por reflexões de profissionais da área, preservando o anonimato.

Referências Bibliográficas

  • NAPOLITANO, Marcos. 1964: História do Regime Militar Brasileiro. São Paulo: Editora Contexto, 2014.

Christian Mulato
Cidadão Brasileiro

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